Kiame observava atento aos movimentos dos pedestres que corriam para protegerem-se da chuva que caia miúda, a quarta-feira amanheceu escura e mantinha-se cinzenta, na rádio só se ouvia relatos dos estragos do dia anterior e a previsão era de mais chuvas. Enquanto segurava a sua chávena de café e apreciava o movimento da rua com a sua Canon 7D, sentado no café ao pé do serviço, o rapaz perdeu-se enquanto tentava retratar momentos inesperados até que lembrou que deveria voltar ao escritório e teria que explicar sua ausência repentina.
Kiame voltou para o escritório tentando desviar os olhares curiosos dos demais empregados que àquela hora já haviam retornado a suas actividades habituais, enquanto tentava focar-se no trabalho, os devaneios da noite anterior o distraíam, Kiame sempre foi muito tímido e o pior em ser tímido, é que as relações de hoje as coisas acabam acontecendo com uma certa rapidez e as pessoas não param tanto para tentar entender e compreender os outros, acabam gostando mais do que as atrai por fora do que o conteúdo em si, geralmente as pessoas não querem dar-se o trabalho de conhecer melhor alguém, principalmente quando se é tímido, ou que não se mostra logo de cara, isso se torna ainda pior numa relação a dois, ainda mais quando se é homem, pois na nossa sociedade o normal é que o homem tenha a iniciativa, e quando se é tímido essa iniciativa pode ser bem lenta, o que acaba gerando um desinteresse e as vezes até desprezo, afinal porque uma mulher se daria ao trabalho de tentar entender e conhecer alguém que é mais discreto, tímido.
A hora do almoço chegou rápido, e embora não tinha apetite, decidiu ir ao terraço, uma chávena de café, maquina na mão e uma hora inteira para aproveita-los. A esta hora do terraço do prédio de 13 andares, Kiame tinha uma vista de quase toda marginal de Luanda, a que mais lhe chamava atenção era a paisagem mais a norte do terraço que dava para o terraço de um mini prédio. Todos os dias, acertadamente as 13 horas Luna subia até ao terraço para dar um mergulho, bronzear-se enquanto lia uma das edições da Revista Chocolate e apreciava uma bebida qualquer.
Essa rotina de quase um mês levava Kiame a ter o momento mais alto do seu dia, a ansiedade em voltar a vê-la, fotografa-la em segredo tornou-se algo indescritível, várias foram as vezes que em momentos criou fantasias diversas, em muitas delas, Kiame ganhava coragem e a abordava, pedia o seu número, saiam para jantar e a noite terminava numa eloquente e prazerosa noite de amor. Porem tudo isso, era apenas fantasias de um fã louco e depravado.
Numa das muitas manhas, enquanto tomava seu café e apreciava os relatos na televisão da pastelaria onde tomava o pequeno-almoço todos os santos dias, alguém, um rosto bastante familiar entrou pela sala, radiando uma energia contagiante e um odor fresco e convidativo, direccionou-se ao balcão e com um sorriso doce cumprimentou o velho que lá atendia, carinhosamente o tratou por Sr. Sebas e ele respondeu na mesma sintonia saudando a bela jovem Luna, foi assim que Kiame descobrirá o nome de sua musa.
O dia Cinzento, não atrapalhou o banho diário de sol de Luna, diferente dos outros dias, Luna subiu vestida com um robe vermelho, de seda talvez, Kiame tentava decifrar o porquê da mudança, quando por um triz caia parapeito abaixo a ver que Luna encontrava-se despida, parcialmente, vestia uma cueca do mesmo tecido que o robe. Luna havia trocado também a posição do seu assento neste dia, dando maior visibilidade e facilidade para Kiame fazer as fotos.
Luna tinha pele morena, lábios carnudos, pernas longas, dotada de peitos grandes mais cheios e maduros, tinha uma tatuagem de passarinhos que se escondiam na linha do sutiã, porem hoje mais visíveis ou livres estavam, e um trevo de três folhas no pé esquerdo, Kiame indagava se essas teriam algum significado, tinha o afro hoje rebelde e uns óculos de sol espelhados, que por momentos Kiame viu-se reflectido neles, assustou-se mais uma vez, a ideia de saber que Luna o podia estar a ver, chegava a ser mais arrepiante que o filme Jeepers Creepers.
Luna mergulhou e Kiame fotografou, todo e qualquer movimento por ela feito, aquele momento tão íntimo que partilhavam era singelo e ao mesmo tempo tão efémero, o alarme do telefone de Kiame o alertou que em 10 minutos acabava o almoço e tinha que voltar para o escritório, com dó e um amargo sabor na garganta, Kiame despediu-se de Luna enquanto tirava uma última foto, ele teve certeza do que a dúvida lhe cantava na mente, Luna sabia que ele aí estava.
As horas desta quarta cinzenta passavam lentas, como se de alguma forma o dia não quisesse terminar, Kiame tentava trabalhar, mas vira e volta, olhava para a edição das fotos e via o olhar penetrante de Luna na foto, ela viu-me pensou, sei que viu. Corroer-se de culpa e medo era uma das maneiras de aliviar a sensação de tensão que se criava.
Na saída do edifício, Kiame encontrou Luna parada a porta a sua espera, inesperado era ver-lhe aí e com a certeza que ela não o tivera ido ver, ele travou internamente, mas continuou andando até ao estacionamento, rezando para que Luna não o reconhecesse.
– Kiame?
Ele olhou para o chão e depois meio que inseguramente para Luna.
– Tudo bem com você?
– Sim, respondeu ele nervoso – tudo sim. E você?
Luna percebeu que Kiame tentava esconder a sua câmera, por trás das costas.
– Estou bem, obrigado.
Luna esticou-se para tentar ver o que Kiame tentava esconder.
– O que tem aí? Perguntou Luna.
– Aqui? Nada. Nada, disse Kiame
Luna aproximou-se o suficiente para ouvir o bater forte do coração de Kiame
– Ah… Nada?! Certeza?
Kiame, balbuciava, mais nada de concreto se entendia do que tentava falar.
Sentindo-se encurralado e sem ter por onde fugir, Kiame mostrou apenas a pasta em que carregava o seu bem mais precioso, a sua câmera. Luna pegou a pasta, e a pousou por cima da porta mala do carro em que estava encostada e a abriu vendo a máquina, ligou e passou a ver todas as fotos, uma por uma, sua expressão facial era indescritível e por mais que Kiame tenta-se pegar uma reacção daquele rosto angelical, era falho o mesmo.
Luna sorriu inocentemente ao ver o quão tímido aquele desconhecido estava, e, em seguida lançou seu corpo na direcção de Kiame, e com um suave beijo na bochecha agradeceu pelas lindas fotos.
O jovem foi pego de surpresa: Obrigada? Você gostou das fotos – disse Kiame empolgado.
– Parece que sim – respondeu ela virando o rosto na direcção do rapaz, ficando a centímetros dele, principalmente desta última, mostrou-lhe.
– Agora entendo porque saíste tão apressado do terraço, não queria que desses por conta que eu te conseguia ver, queria apenas dar-te mais com o que trabalhar.
Instantaneamente, ambos ficaram sem graça, o que levou Kiame a tentar desculpar se por invadir a privacidade de Luna, o que o deixou hipoteticamente vermelho e o fez começar a gaguejar.
– Bom, espero por ti hoje as 20 horas no meu apartamento, levarei a câmera, assim não terás como não aparecer.
Sem saber como reagir, nem o que pensar, Kiame simplesmente respondeu um simples e oco “OK!”.
Ansiedade é simplesmente a pior inimiga para um tímido, a sensação de espera é aterrorizadora, o sangue congela por alguns momentos e vezes outra chega-se a sentir calores que escorrem pelo corpo, como se estivesse numa sauna.
Kiame estava em transe enquanto olhava para o tecto escuro do seu T0, tentava repassar bem lento tudo que se tinha passado. Olhou para o relógio faltava exactamente 2 horas para o encontro, levantou e bebeu a terceira chávena de café e já sentia o coração palpitar, um ataque de coração a essa hora seria engraçado, pensou enquanto preparava o café.
Haviam passado 40 minutos desde que Kiame estava debaixo do prédio de Luna, tinha-se tornado um autêntico perseguidor, Luna vivia no primeiro andar do prédio de 3 andares, era um edifício privado, viviam apenas funcionários de uma certa empresa que da qual Kiame não conseguira reter o nome. Apartamento AO1, tinha a porta em uma madeira velha e preta, um tapete com um “Bienvenue”, sem campainha na porta, Kiame bateu e logo a porta abriu-se, notara então que a mesma e então que a mesma estava encostada, Luna o esperava.
O apartamento era todo revestido em cores neutras, uma combinação entre branco, nude e cinzento, a televisão ligada passava uma novela qualquer, o apartamento fazia-o lembrar o apartamento de Carrie Bradsaw´s na serie Sex and the City, apenas mais neutro e num clássico simples.
Luna veio para sala, vestia um robe azul, transparente o suficiente para poder notar-se o conjunto com renda e liga que vestira da mesma cor, um batom escuro adornava aqueles lábios, vendo-os agora Kiame os preferia no tom natural, tinha o rosto levemente maquiado, como se fosse sair para algum evento.
– Kiame, pensei que não viesses. Queres beber alguma coisa ou passamos logo para acção?
Acredito que a saliva engolida para de alguma maneira lubrificar a garganta seca foi suficiente, e Kiame simplesmente disse não estar com sede. Luna pegou-lhe pela mão, sentiu a fresca, húmida e a tremer, olhou directamente para os seus olhos e disse:
– Relaxa, não é como se nunca tivesses feito isso, certeza que não será a tua primeira vez, e o levou até ao corredor que dava para o cómodo principal da casa, o quarto de Luna.
O quarto estava tão frio que se poderia comparar a uma câmara frigorifica industrial, o quarto de Luna era simples, uma cama de tamanho real, com roupa de cama toda branca, um enorme tapete cinzento de pelos, um armário que ocupava a maior parte do quarto, mais que por ser todo ele espelhado, dava um ar amplo ao mesmo. As cortinas eram cinzentas, num tom mais escuro da cor, considerando o facto de ter as janelas todas em vidro a cor escolhida para as cortinas ajudavam a esconder o que não era suposto ser visto a luz do dia.
Por momentos pensou que estivesse a sonhar, era muito mais fácil, do que acreditar na realidade que os seus olhos tendiam a mostrar-lhe. Luna disse estar pronta, chegou-se próximo a Kiame, deixou o robe escorrer lentamente até chegar ao chão revelando não só o conjunto mais também o decote bastante avantajado, encostou-se mais e como que por instinto Kiame deu um passo, seguido de outro passo para trás, até tocar no sofá que se encontrava no meio do quarto, Luna encostou-se mais um pouco e baixou para pegar a câmera de Kiame que estava por cima do sofá e o entregou, Kiame olhou pasmo, pois nada mais fazia sentido.
– Hoje tens a minha permissão para fazer fotos, sempre quis fazer uma sessão, só não conhecia ninguém tão bom para o fazer. Luna dirigiu-se até a cama e deitou-se olhando para ele enquanto o esperava.
Enquanto tentava focar e alinhar-se a luz e temperatura do quarto, Kiame ponderava se não devia sair a correr porta fora e esquecer que um dia aí esteve, afinal havia assistido diversos filmes e series e na maioria das vezes situações do género terminavam em tragédia, com a chegada de um amante ciumento e violento, que dava um fim sangrento ao casal de amantes ou apenas a vítima.
Fotografar sempre foi o melhor meio de comunicação de Kiame, seu refúgio, sua terapia, não existiam dias cinzentos ou aborrecidos quando se tem em companhia uma câmera. Na maioria das vezes fotografava sozinho, pois gostava de não ouvir detalhes de outros de como o fazer, não era nenhum profissional, fazia-o apenas por diversão e pela sensação de liberdade que a mesma a providenciava, vezes havia que fotografava em grupo, outras em casamentos ou eventos sociais de familiares ou amigos próximos. Nunca havia feito fotos do género estúdio, a esse tipo de fotos pouco lhe importava, gostava mesmo do natural, do que não se podia classificar.
Fotografar Luna era natural, era como se a câmera já se houvesse habituado com a modelo, o que não deixava de ser verdade, era tudo tão sincronizado que quem não soubesse diria que foi ensaiado, Luna sabia mexer-se perante os flashes, e Kiame a acompanhava detalhadamente, como se de um tango intenso se tratasse. Começou a chover e de repente Luna levantou da cama, abriu uma das portas que dava para varanda e pediu a Kiame que a fotografasse aí fora.
Tinham a baía iluminada como pano de fundo e a chuva que a molhava tornou-se o melhor adorno da noite, a um determinado ponto Luna estava totalmente encharcada, seu cabelo havia encolhido, seus seios estavam todos expostos e os mamilos arrebitados por debaixo do tecido completamente molhado. Ela pediu que continuassem, ela mostrou-se sedutora para a câmera, enquanto dançava por baixo da chuva os flashes repetidos a acompanhavam naquela sinfonia que ambos criavam.
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